quarta-feira, 20 de agosto de 2025

A solução para as cidades está na natureza

 


No caminho até a COP30, o Brasil tem a chance de mostrar ao mundo como integrar resiliência urbana, justiça climática e Soluções Baseadas na Natureza

Por Juliana Baladelli Ribeiro*


Até 2050, cerca de 70% da população global viverá em áreas urbanas. A expansão das cidades tende a agravar os impactos da mudança do clima e afetar ainda mais as populações que vivem em regiões vulneráveis, como encostas, margens de rios e zonas costeiras. Ondas de calor, escassez de água, enchentes, perda de infraestrutura, serviços públicos sobrecarregados e aumento das desigualdades sociais serão desafios crescentes para os centros urbanos em um mundo cada vez mais quente.


É preciso repensar o modelo de desenvolvimento. A urbanização desordenada, que ignora a lógica dos ecossistemas naturais, compromete não apenas a qualidade de vida, mas também os serviços ambientais essenciais à sobrevivência humana. Cidades impermeabilizadas, com áreas verdes escassas e insensíveis à degradação de ecossistemas naturais costeiros como manguezais, restingas e recifes de corais vêm enfrentando dificuldades crescentes para lidar com os extremos climáticos.


É nesse cenário que ganham força as Soluções Baseadas na Natureza (SBN) — abordagem que alia conservação, restauração ecológica e tecnologias inovadoras baseadas em infraestrutura verde para enfrentar os desafios urbanos. Além de economicamente vantajosas em relação às obras de engenharia convencional, essas soluções representam uma oportunidade eficaz de transformar o modelo de desenvolvimento urbano no Brasil.


Recuperar áreas degradadas, ampliar a arborização, restaurar nascentes e mananciais, conectar parques e expandir áreas verdes em territórios periféricos significa agir simultaneamente por justiça climática, saúde coletiva, biodiversidade e segurança hídrica. Mas as SBN vão além: podem complementar sistemas de drenagem urbana com o uso de jardins de chuva e praças úmidas e até contribuir no tratamento de efluentes, como no caso de jardins filtrantes, tecnologia que faz uso da natureza para devolver água limpa aos sistemas naturais.


A adaptação climática exige um esforço coordenado entre os diferentes níveis de governo. As prefeituras têm papel muito relevante, pois são responsáveis por políticas públicas de saneamento, drenagem, mobilidade, habitação e proteção social, todas profundamente impactadas pela mudança do clima. Ações locais são essenciais e são onde a mudança de paradigmas se concretiza, mas só ganham escala regional, nacional e global com uma coordenação macro, acesso a financiamento climático e suporte técnico.


Nesse contexto, o papel de bancos e agências de desenvolvimento é estratégico. Ao apoiar projetos urbanos que integram SBN, essas instituições não apenas fomentam a adaptação climática, como também promovem equidade social e valorizam territórios frequentemente expostos a grandes riscos. Parques urbanos, telhados verdes, hortas comunitárias, drenagem sustentável e corredores ecológicos são infraestruturas do futuro e precisam ser tratadas como tal.


A quarta carta da presidência brasileira da COP30 à comunidade internacional, divulgada em junho, durante a Conferência do Clima da ONU em Bonn, na Alemanha, reforça essa perspectiva. Ao propor a construção de uma agenda de ação com seis eixos temáticos, o documento apresenta um “celeiro de soluções” que conecta ambição climática a desenvolvimento socioeconômico. Um dos eixos centrais é justamente a construção de resiliência em cidades, infraestrutura e água, com foco no fortalecimento das capacidades locais, no planejamento urbano integrado e no aumento de investimentos em soluções sustentáveis e inclusivas.


O texto também destaca a importância de avançar em temas estruturantes, como a definição de indicadores para a Meta Global de Adaptação (GGA, sigla em inglês), e defende que a adaptação ganhe centralidade nas negociações internacionais. Esse é um ponto crucial: além de metas globais, espera-se que cada país elabore e implemente seus Planos Nacionais de Adaptação, contemplando os governos subnacionais, com recursos e condições reais para que os municípios desenvolvam e executem suas estratégias.


Mesmo que o mundo ultrapasse temporariamente o limite de 1,5°C de aquecimento traçado pelo Acordo de Paris, como indicam relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), ainda é possível evitar o colapso urbano e social. Isso exige, no entanto, ação imediata e corajosa. O risco de crises alimentares, deslocamentos forçados, eventos extremos e perda de biodiversidade aumenta a cada ano. As consequências de um planeta mais quente não podem ser usadas como desculpa para a inação.


Com a realização da COP30 em Belém, o Brasil tem a oportunidade histórica de liderar uma agenda climática ousada, com olhar para os territórios e com base científica. As cidades brasileiras, apesar de todos os seus desafios, ainda podem se tornar vitrines de inovação e resiliência climática. Mas, para isso, é preciso reconhecer definitivamente a natureza como parte da solução.

 

*Juliana Baladelli Ribeiro é bióloga, especialista em Soluções Baseadas na Natureza e gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.


Ela integra o grupo de 78 especialistas globais escolhidos pela ONU para estruturar um conjunto de indicadores de adaptação às mudanças do clima a ser seguido pelos países.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Exposição Cuide-se transforma resíduos em arte e mobiliza Maresias para a sustentabilidade

 

Mostra reúne 12 artistas brasileiros, oficinas para crianças e ações comunitárias com apoio do Ministério da Cultura e Sabesp


De 18 a 31 de agosto, o Parador Maresias será ocupado pela exposição “Cuide-se”, iniciativa que une arte, educação ambiental e mobilização comunitária. A mostra é realizada pelo Ministério da Cultura, com patrocínio da Sabesp via Lei Rouanet, e apoio das secretarias municipais de Turismo, Educação, Meio Ambiente e Cultura de São Sebastião e da ONG Lixo Zero.


Durante duas semanas, o público poderá visitar gratuitamente, das 8h30 às 17h30, um conjunto de obras criadas por 12 artistas brasileiros a partir de resíduos sólidos, tecidos descartados, sucatas e metais reaproveitados. O objetivo é transformar matéria de descarte em poesia visual e provocar reflexão sobre o impacto ambiental do consumo.


Arte como urgência 


A exposição “Cuide-se” parte da ideia de que o cuidado é um gesto político diante das crises ambientais e sociais. “A arte deixa de ser apenas contemplação para se tornar um chamado à ação”, afirmam os organizadores.


Entre os nomes presentes estão Marcos Sachs, com anamorfismos e instalações que desafiam a percepção; Maíra Vaz Valente, que explora corpo e água como resistência; e Jubileu Arte (Edson Martins), que transforma jornal impermeabilizado em objetos duráveis e afetivos. As obras se propõem a atravessar estética, ética e política, aproximando o público de uma discussão sobre consumo e descarte.


Oficinas e impacto social local


Além da mostra, o projeto promove uma oficina pedagógica voltada a crianças da rede pública, simulando uma mini cooperativa de reciclagem. Em dez dias, cerca de 2.500 estudantes vão participar de atividades que incluem visita guiada, triagem de resíduos e criação de painéis coletivos com o símbolo da reciclagem. Esses trabalhos serão espalhados pela cidade, transformando Maresias em uma galeria a céu aberto.


Segundo Ricardo Leão, CEO da Agência MAK, uma das principais empresas do segmento de live marketing, criação, tailor made e endomarketing do país, responsável pela produção do evento, o projeto gerou cerca de 40 empregos na região, envolvendo oficineiros e monitores locais. “É arte que não só educa, mas também fortalece a economia comunitária”, diz. 


O material educativo inclui uma cartilha para professores, que integra artes visuais, história, filosofia e geografia, incentivando práticas interdisciplinares e avaliação formativa.


Legado para além da exposição


Para os organizadores, a ideia é que a experiência não se encerre no dia 31 de agosto. “Queremos deixar um legado de consciência e transformação, para que a cidade continue vivendo e promovendo a cultura do cuidado, afirma Leão.


 A expectativa é que a iniciativa inspire novos projetos de reaproveitamento e mobilização.


Serviço

Exposição: Cuide-se

Período: 18 a 31 de agosto de 2025 — todos os dias, das 8h30 às 17h30

Local: Parador Maresias — Av. Dr. Francisco Loup, 357 — Maresias, São Sebastião (SP)

Entrada: gratuita

Curadoria: André Sampaio

Produção Tudo Certo Produções e Grupo Prismma

Patrocínio: Sabesp

Apoio: Secretarias de Turismo, Educação, Meio Ambiente e Cultura de São Sebastião; ONG Lixo Zero

Realização:  Ministério da Cultura